segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

PANE

No auge do 'delírio catártico' cortaram a luz elétrica.
Em princípio, as vaias e os estridentes assovios, foram logo dissipados quando se restaurou a energia através do gerador.
Mas, aos poucos, começava a sentir um enorme calor queimando-lhe a face, em oposição ao gelado suor das mãos e dos pés.
Percebeu-se engasgado.
Em vão tentava falar algo para a inquieta platéia, mas como num pesadelo, a voz não saía. “Isso não pode ser apenas 'um acidente'!”.
E vem mais vaias, assovios e gritos.
Um dó maior, na guitarra emendar seu principal hit. Qual nada, em fúria, o público se agita ainda mais. Há de se considerar que o show havia atrasado pelo menos umas duas horas.
Tanto ensaio! As últimas composições em parceria com a amada. A consolidação do sucesso! Seu estilo próprio, sua nítida Word music... “Onde estará?”.
A partir daquele instante não conseguia perceber mais nada. Que música executava, quem estava ao seu lado, ou o quê, de fato, estava acontecendo...
Batendo com força o pé direito no lastro do palco, procurava retomar o raciocínio, situar-se naquele misto de realidade e pesadelo.
Por sorte, percebe a amada: sussurra ao seu ouvido, numa penumbra, algo como uma canção de ninar, que repetia ao microfone.
Num contraponto, guitarra, tambores e baixo reerguiam as mãos e o ânimo dos presentes. Estes, arrefecendo o ímpeto colérico de a pouco, agora voltavam a se deixar embalar pelas ondas e fótons do espetáculo.

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