terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DAS GENTES

Quando tudo é novidade, não há como desviar o deslumbramento, sorver cada instante, carpe diem. Adeus vida de casada, regras, horários, compromissos, filhos, marido, casa. No auge dos trinta, finalmente sentia a luminosa sensação da felicidade, da liberdade!
Palco das boas rodas, cerveja, fumo, bons papos e música. O ap dois quartos, varanda com vista pro mar... era tudo!
Naquela manhã de sábado, de novo havia acordado com um cara diferente. Não tinha a menor ideia do que ocorrera durante a noite. O rapaz, já levantado, havia feito café, que o cheiro invadia o prédio. Beijou-lhe na testa, bom dia, passando-lhe uma ponta, que recusou. Alto, moreno, mais ou menos a sua idade, tinha um sorriso tímido e olhos tristes. Bom dia, como é o seu nome, a gente transou, usou camisinha, como é o seu nome, como a gente se conheceu?
Lembrava bem da infeliz idéia, no dia anterior, quando após ter tomado ao menos uma dúzia de cervejas, resolvera ir pro uísque. Na primeira dose, foi como se começasse tudo de novo. Misturava-se desejo com lucidez e sobriedade à alegria embalada pelo rock ao vivo do Mad Dogs. O problema é que quando nos acostumamos a tomar cerveja, em freqüentes goles, e migramos pro uísque, a embriaguês é inevitável. Corremos um risco enorme de as coisas não terminarem muito bem.
Bom, parecia não ser o caso. Traços finos, fortes braços e o riso tímido na mais linda boca humana, respondia às perguntas com outras perguntas. Você quer água? Tá legal? Quer um suco?
Puta que pariu! Explodiu: quem porra é você, me fala o cassete do teu nome!
Como um cão que mesmo enxotado insiste em querer bem ao dono, o cara apresentou-se. Nome, sobrenome e certidão de antecedentes, num timbre firme, mas discreto, quase um sussurro. Havia acabado de chegar à cidade, conhecera-a no barzinho, na noite anterior. Tinham amigos em comum.
Depois do sexo, compartilharam o restante daquela ensolarada e cristalina manhã como crianças saboreando guloseimas. Pela veneziana do ap, subia uma tênue nuvem de fumaça desenhando animais, plantas, anjos e demônios, formas sobrenaturais.
(...)
Edilson Paulo de Souza Furquia

quarta-feira, 29 de junho de 2011

DILÚVIO

O dia enxaguado

Limpa a`lma

Sigo

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A ESPERANÇA NUNCA MORRE

No outro dia, a esperança à porta parecia algum sinal dos últimos acontecimentos. Muito provavelmente havia sido a cadela da casa. Pensativo, seu dono não conseguia compreender direito, mas era inevitável a imagem metafórica. Tal qual aquele pequenino ser verde, também sua alma, ali inerte na soleira, parecia haver morrido. No mínimo, se distanciado um bocado.
De repente, como num sonho, começa a enxergar. Inicialmente, a partir dos tímidos movimentos das pernas. Depois, se erguendo. Agora, como se suas asas já pendessem para o alto. A esperança de novo viva!
Equilibrando-se junto à grade do portão com seus brilhantes olhinhos voltados para ele, começa a falar-lhe: "Por isso morri, não foi a sua cadela Salomé. De fato, não suportei mais a caretice do mundo". Esfrega os olhos, procurando entender se era um sonho ou se havia mesmo perdido de vez a razão, se aproxima do bichinho. "Não sei porque você se espanta, sei que já vivenciou experiências semelhantes".
Voltou a lembrar do dia anterior e tentou agarrar a esperança. Rápida, ela pulou para a parte alta do portão. Agora, olhava-o de cima para baixo.
Corre até a escada, resolve se afastar. Sua mulher, despertando, já na cozinha, "João, você pode deixar o lixo lá fora"?

A CASA DA ÁRVORE

Naquela noite, na casa da árvore, com seu para-peito em ipê bem acabado, nenhum de nós sabia ao certo a quantidade de vinho que havíamos bebido.
Agora que dormiam, aos roncos, os donos da casa, passamos a fumar – eu e seus dois filhos, um rapaz de mais ou menos minha idade e sua bela irmã, mais nova.
E mais vinho e fumo e vinho... Em meio à fumaça desanhavam-se estranhas formas, às vezes monstros, ao fundo Santana: “Samba Pa Ti”. Conversávamos, olhávamo-nos. Como é linda! Manga Rosa, peitos formosos! Ah, essa minha timidez!
Blá, blá, blá... Falávamos de música, literatura, cinema e até sobre educação – como eu, ela também professora, doutora em física. Quando olhei, seu irmão havia baixado-lhe as calças. Huum... Sem acreditar, esfregando os olhos, voltei-me pro quarto, os velhos, ao lado zzzz... De novo olhei pra varanda, agora seu irmão também nu, agarrava-a por trás, ela debruçada sobre o para-peito.
Ao fundo, Santana: “Samba Pa Ti”...
Com os olhos esbugalhados, como se fossem saltar das têmporas, numa expressão de terror, gritava: "_estou errada, estou errada! sei que estou errada!". Seu irmão, agarrando-a pelas ancas e pelos cabelos, tentava tampar-lhe a boca, enquanto entrava ainda com mais força.
No quarto ao lado, os velhos zzzz...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

CONVITE

Venha dizer mais um verso

Arrancar em palavras algum cadáver

Um sentido instante de língua
Como um presente...

Homem ou mulher
Venha
Nessa lira
Letra comigo

Sonhe
Beba vinho
Prove
Sorva a poesia em suas papilas

Dance, brinque
Embriague-se
Nesse instante
Alegre viver

sexta-feira, 3 de junho de 2011

AMOR FATI?

Como um tiro certeiro, o sorriso de olhos desmonto-a. Corada face, bambas pernas, voz engasgada. Sorrir amarelo lhe restara: _como vai?
Há vários tipos de conquista, porém as mais interessantes são gratuitas. Há diversos tipos de sorriso, mas desmontar assim, é demais! Tinha tanto ódio quanto atração por aquele sorriso de olhos.
Na universidade, no mesmo departamento, haveriam de se cruzarem.
Na sala de aula, a mesmice de sempre, tudo redondinho, planejado... Ah, Gaia, a ciência, alegria Espinosa!... Mas, a turma!... Até aonde vai essa “crise”!
O tempo passou rápido, agora de volta à casa. Amanhã, tudo do mesmo. E, ainda bem! Alô, mãe, como vai?...
Na varanda, a fumaça parece desenhar uma cena em perspectiva, na qual é a personagem principal. Brigam na memória o não pensar, viagem de fuga, mas há perceptos que inquietam, manter-se viva.
Dorme. No sonho sua presença, o sorriso de olhos e a raiva dele. A raiva cede, sua mão esquerda lhe toca. Ele entra nela.
Pela manhã, no campus, a amiga: _nossa, o que houve?
_Como assim?
_Você tá diferente.
_Tive um sonho...