Zacarias, o caseiro, não tinha a menor dúvida: eram loucos seus patrões.
Por educação e pelo respeito que os tinha, nutria com os mesmos uma cordial relação de mordomia. Mas, no seu íntimo, principalmente às noites em que dividia a casa com os patrões, intrigava-lhe, e muitíssimo, seus hábitos e dos seus convivas.
Temente a Deus - mais que isso, Diácono militante da igreja evangélica naquela belíssima praia, comunidade aldeã no litoral do nordeste brasileiro, soavam esquisitíssimos os pedaços de conversa que escapavam além da sala.
Para ele, pareciam-lhe pessoas não crentes, ignorantes. Era absolutamente incompreensível como podiam, homens e mulheres, beberem tanto vinho, por tantas horas seguidas. Rirem tanto por nada e ainda declamarem versos tão ininteligíveis! E a música? ”Bem, se é que se podia chamar aquilo de música!”...
Mas, no dia seguinte, relevava: “Bom dia, doutor! Tô deixando o esguicho aberto na grama do jardim. Vou buscar o seu jornal e pão quentinho; volto já...”
Além do razoável salário, não havia motivo para queixas. Atenciosos, os patrões de Zacarias ajudavam-no também num item fundamental para qualquer ser humano: a educação escolar dos filhos.
Por isso, seu filho único, Isaac, com quinze anos de idade, não estudava na única escola pública dali, mas numa cara escola particular da capital, a meia hora de relógio. Somente dentro da van, novinha, responsável pelo transporte escolar da meia dúzia de abastados que habitavam a aldeia, ou durante os intervalos das aulas, ou ainda quando os patrões estavam em férias na casa de praia com os seus filhos, é que Isaac conversava com outros garotos da sua idade.
Ficava por conta de seu pai - a mãe praticamente em nada opinava - a imposição da rotina: casa – escola – igreja – casa... Conversas ou brincadeiras com os nativos, nem pensar!
Assim, há oito anos moravam naquela casa, com suas amplas varandas voltadas para o Atlântico e visitada, uma ou duas vezes por ano, pelos proprietários.
Austero e muito organizado em seus afazeres cotidianos, Zacarias sempre reservava um horário para acompanhar os “Deveres de casa” do filho. Era também nesses momentos que aproveitava para leitura de textos bíblicos para Isaac.
Havia, porém, algo importante acontecendo debaixo do seu nariz.
Isaac tinha uma enorme curiosidade sobre o mundo, as pessoas, as coisas todas do mundo. Estudante do 1º ano do ensino médio, havia se tornado um leitor voraz de tudo quanto é literatura secular.
Durante os instantes em que escapava da vigilância do pai, corria - literalmente - ao pequeno quarto escondido no fundo do quintal da casa, por traz de uma sebe. Lá, havia, pelo menos uns três anos, encontrado pilhas e pilhas de livros e CD’s de música deixados pelos donos da casa.
Acomodado numa poltrona velha, dentro do quartinho, Isaac, nesses três anos, já havia dado conta da leitura de dezenas de contos de Machado de Assis, poemas e contos de Drummond, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Kafka e Edgar Alan Poe, para citar alguns dos mais importantes.
Sem abrir mão das boas notas nas provas escolares, o filho único de Zacarias vivia, em sua fruição literária, um dos momentos de maior euforia e inquietação que um humano pode experimentar. Além dos livros, Isaac dedicava-se também a ouvir musica. Conseguira baixar no próprio celular, dezenas de álbuns, do clássico ao popular, tudo que é de mais sofisticado e de vanguarda. Sua predileção no momento era pelo compositor húngaro Béla Bartók, ou seja, de Beethoven a Chico Science, nosso garoto já havia bebido de tudo na valiosa fonte musical escondida no pequeno quarto por trás da sebe.
Alheio aos fatos, Zacarias espreitava inquieto as mudanças no comportamento do filho. Angustiava-se, até o fundo da alma, perceber que não conseguia mais obter dele o retorno, a cumplicidade no olhar d’outros tempos.
Agora, Isaac tornara-se sombrio e distante, quase não participando mais dos corinhos, nem dos círculos de oração na igreja. Durante a última escola dominical, Zacarias chegou a flagrar-lhe dormindo profundamente.
Porém, nada intrigava e inquietava mais o Caseiro que a percepção de outra mudança. Essa surpreendentemente fantástica. Estupefato, percebia que seu filho passara a assemelhar-se incrivelmente, tanto nos aspectos comportamentais, como na maneira de vestir-se ou portar-se à mesa, quanto na própria fisionomia, com o seu patrão.
Como se conversasse consigo mesmo, olhava-se no espelho, por horas, indagando-se: “Meu Deus, como isso é possível? Não é ele meu filho querido, meu único filho!? Devo fazer o tal exame do DNA? Mas... Em que isso me ajudaria, se não consigo mais reconhecê-lo como filho! No entanto, parece-se cada vez mais com o louco dono da casa!”.