quarta-feira, 29 de junho de 2011

DILÚVIO

O dia enxaguado

Limpa a`lma

Sigo

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A ESPERANÇA NUNCA MORRE

No outro dia, a esperança à porta parecia algum sinal dos últimos acontecimentos. Muito provavelmente havia sido a cadela da casa. Pensativo, seu dono não conseguia compreender direito, mas era inevitável a imagem metafórica. Tal qual aquele pequenino ser verde, também sua alma, ali inerte na soleira, parecia haver morrido. No mínimo, se distanciado um bocado.
De repente, como num sonho, começa a enxergar. Inicialmente, a partir dos tímidos movimentos das pernas. Depois, se erguendo. Agora, como se suas asas já pendessem para o alto. A esperança de novo viva!
Equilibrando-se junto à grade do portão com seus brilhantes olhinhos voltados para ele, começa a falar-lhe: "Por isso morri, não foi a sua cadela Salomé. De fato, não suportei mais a caretice do mundo". Esfrega os olhos, procurando entender se era um sonho ou se havia mesmo perdido de vez a razão, se aproxima do bichinho. "Não sei porque você se espanta, sei que já vivenciou experiências semelhantes".
Voltou a lembrar do dia anterior e tentou agarrar a esperança. Rápida, ela pulou para a parte alta do portão. Agora, olhava-o de cima para baixo.
Corre até a escada, resolve se afastar. Sua mulher, despertando, já na cozinha, "João, você pode deixar o lixo lá fora"?

A CASA DA ÁRVORE

Naquela noite, na casa da árvore, com seu para-peito em ipê bem acabado, nenhum de nós sabia ao certo a quantidade de vinho que havíamos bebido.
Agora que dormiam, aos roncos, os donos da casa, passamos a fumar – eu e seus dois filhos, um rapaz de mais ou menos minha idade e sua bela irmã, mais nova.
E mais vinho e fumo e vinho... Em meio à fumaça desanhavam-se estranhas formas, às vezes monstros, ao fundo Santana: “Samba Pa Ti”. Conversávamos, olhávamo-nos. Como é linda! Manga Rosa, peitos formosos! Ah, essa minha timidez!
Blá, blá, blá... Falávamos de música, literatura, cinema e até sobre educação – como eu, ela também professora, doutora em física. Quando olhei, seu irmão havia baixado-lhe as calças. Huum... Sem acreditar, esfregando os olhos, voltei-me pro quarto, os velhos, ao lado zzzz... De novo olhei pra varanda, agora seu irmão também nu, agarrava-a por trás, ela debruçada sobre o para-peito.
Ao fundo, Santana: “Samba Pa Ti”...
Com os olhos esbugalhados, como se fossem saltar das têmporas, numa expressão de terror, gritava: "_estou errada, estou errada! sei que estou errada!". Seu irmão, agarrando-a pelas ancas e pelos cabelos, tentava tampar-lhe a boca, enquanto entrava ainda com mais força.
No quarto ao lado, os velhos zzzz...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

CONVITE

Venha dizer mais um verso

Arrancar em palavras algum cadáver

Um sentido instante de língua
Como um presente...

Homem ou mulher
Venha
Nessa lira
Letra comigo

Sonhe
Beba vinho
Prove
Sorva a poesia em suas papilas

Dance, brinque
Embriague-se
Nesse instante
Alegre viver

sexta-feira, 3 de junho de 2011

AMOR FATI?

Como um tiro certeiro, o sorriso de olhos desmonto-a. Corada face, bambas pernas, voz engasgada. Sorrir amarelo lhe restara: _como vai?
Há vários tipos de conquista, porém as mais interessantes são gratuitas. Há diversos tipos de sorriso, mas desmontar assim, é demais! Tinha tanto ódio quanto atração por aquele sorriso de olhos.
Na universidade, no mesmo departamento, haveriam de se cruzarem.
Na sala de aula, a mesmice de sempre, tudo redondinho, planejado... Ah, Gaia, a ciência, alegria Espinosa!... Mas, a turma!... Até aonde vai essa “crise”!
O tempo passou rápido, agora de volta à casa. Amanhã, tudo do mesmo. E, ainda bem! Alô, mãe, como vai?...
Na varanda, a fumaça parece desenhar uma cena em perspectiva, na qual é a personagem principal. Brigam na memória o não pensar, viagem de fuga, mas há perceptos que inquietam, manter-se viva.
Dorme. No sonho sua presença, o sorriso de olhos e a raiva dele. A raiva cede, sua mão esquerda lhe toca. Ele entra nela.
Pela manhã, no campus, a amiga: _nossa, o que houve?
_Como assim?
_Você tá diferente.
_Tive um sonho...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

MARIA

Da terra molhada

Em maio

Brota Maria

Não a quero no andor

Com ardor te chamo

Não de mãe

Acesa a vela, canto à Rainha

Beijo sua flor, pétala

a pétala

Ao menos até

Findar o mês

OS DOIS IRMÃOS

Como a memória recente insistia que não ficasse parado, atendeu a um dos dois irmãos que lhe pediu que escrevesse essa pequena estória:
Naquela tarde de domingo, as flores enviadas pelo mais velho, parecia haver dissipado, de uma vez por todas, qualquer dúvida.
De novo a mesma coisa, a mesma e antiga agonia de não entender direito aquele misto entre o amor e a fúria.
Restava-lhe essa habilidade de continuar escrevendo, que nutria como uma estratégia para de se manter vivo.
Quando infantes, era comum a disputa pelos brinquedos. Sem contar também as brigas constantes por saber quem realizaria primeiro os sonhos e projeções dos pais.
Neste domingo, depois daquelas flores, como a reedição de um filme antigo, pensou: “iriam, indefinidamente, continuar brigando para o resto de suas vidas?”
As flores, além de belíssimas, de um vivo e brilhante encantamento em suas pétalas, eram também comestíveis. Daí se deu a peleja principal.
O mais novo, presenteado, foi cortês e diligente oferecendo uma das pétalas mais viçosas ao irmão mais velho. Seu gesto, revestido pela boa prosa que embalava o encontro, parecia um bom sinal de melhora na relação.
Entretanto, repentinamente, a pequenina flor começou a mexer-se sozinha e a procurar, inexplicavelmente, outras mãos, narizes e bocas presentes.
Erguiam-se as flores do pequeno vaso, passando lentamente diante dos olhos esbugalhados e queixo caído das pessoas.
Beijou o mais novo na testa e nos olhos. Depois, suavemente se aproximou do mais velho, lambendo-lhe lábios, nariz e olhos, até sair pousando nos demais, repetindo o mesmo gesto.
Na cabeça do mais velho, aquilo só podia ser um sonho. Um maravilhoso sonho. Mas, um sonho.
Já o mais novo insistia na autenticidade e beleza do acontecido. Além disso, acreditava que seu irmão mais velho havia se tornado, definitivamente, uma pessoa fria e insensível. Este, por sua vez, retrucava: “tá perdendo, de vez a razão, o meu irmão...”.

sábado, 14 de maio de 2011

Rio (Grande do Norte), Quinta-feira, 07 de abril de 2011

“A morte não é nada que diga respeito a nós”
Epicuro (341-270)



Se pra escrever há de ser ter um pretexto, se nossa existência está condicionada a isso, esse dia não passaria sem tinta, mesmo que num branco-Kurosawa.

Duas histórias, um filme. Um encontro, a vida, a alegria. Por outro, pulsão de morte: fatídico cotidiano ocre. Stanley Kubrik atualizado, superdimensionado?

O dia abafado e quente caminho tranquilo na Escola Estadual Professora Maria Araujo, no Pium: o burburinho das salas de aula, atrasos, ausências, freqüências, intervalos, telefones e e-mails, o de sempre.

Por mais que a escola pareça se mover sozinha, possuir o seu ritmo próprio, mas seu tempo, como em qualquer outra escola, torna-se sempre exíguo, hiper-comprimido, tenso demais.

Pelo menos, hoje há um diferencial, o dia é motivador: voltaremos à academia! Kafka estava bem ali! Cadê o molho de chaves? Ah, as chaves, porque tudo sempre trancado?

De novo, o telefone: “você soube o que aconteceu no Rio?...” A impressão é de uma reprise de filme antigo, não dá bem pra concatenar. Outro chama, assinaturas, a campainha, “chegou um pai, quer lhe falar”. A ronda policial escolar também chegou, era o que faltava!...

Olho pro lado – ah, encontrei o Kafka. A tarde cai com velocidade, a luz do dia teimoso ainda ilumina a autovia, os 70 cavalos parece conhecer o caminho de casa. É bonito e calmo o ocaso avermelhado na rota do sol! Pensar? Em quê? Pra quê? Adoecer dos olhos?

Mas, chega de tanta pergunta, nos restam as exclamações. Deixemos que indague a filosofia.

Cresceu um girassol no Campus. E é belíssima a sua flor! Quanta grama há no jardim!

Foi bom encontrar uma pessoa, se primeira do plural ou singular, não importa, mas vale seu olhar a minha espreita. Levou-me à sala de aula, ofereceu-me um café, despertou-me um lirismo exagerado.

Absorto, sem conseguir disfarçar, tentei falar academicamente. Em vão!

Nesse dia, com os bichos desembestados, não fui além da perplexidade em continuar vivo, mesmo que me sentindo extremamente só.

Edilson Paulo de Souza

Referências:

FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. 2. Rio de Janeiro: Ediouro Multimidia, 2009.

PESSOA Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. 20ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

EDUCAÇÃO DOMÉSTICA

Zacarias, o caseiro, não tinha a menor dúvida: eram loucos seus patrões.
Por educação e pelo respeito que os tinha, nutria com os mesmos uma cordial relação de mordomia. Mas, no seu íntimo, principalmente às noites em que dividia a casa com os patrões, intrigava-lhe, e muitíssimo, seus hábitos e dos seus convivas.
Temente a Deus - mais que isso, Diácono militante da igreja evangélica naquela belíssima praia, comunidade aldeã no litoral do nordeste brasileiro, soavam esquisitíssimos os pedaços de conversa que escapavam além da sala.
Para ele, pareciam-lhe pessoas não crentes, ignorantes. Era absolutamente incompreensível como podiam, homens e mulheres, beberem tanto vinho, por tantas horas seguidas. Rirem tanto por nada e ainda declamarem versos tão ininteligíveis! E a música? ”Bem, se é que se podia chamar aquilo de música!”...
Mas, no dia seguinte, relevava: “Bom dia, doutor! Tô deixando o esguicho aberto na grama do jardim. Vou buscar o seu jornal e pão quentinho; volto já...”
Além do razoável salário, não havia motivo para queixas. Atenciosos, os patrões de Zacarias ajudavam-no também num item fundamental para qualquer ser humano: a educação escolar dos filhos.
Por isso, seu filho único, Isaac, com quinze anos de idade, não estudava na única escola pública dali, mas numa cara escola particular da capital, a meia hora de relógio. Somente dentro da van, novinha, responsável pelo transporte escolar da meia dúzia de abastados que habitavam a aldeia, ou durante os intervalos das aulas, ou ainda quando os patrões estavam em férias na casa de praia com os seus filhos, é que Isaac conversava com outros garotos da sua idade.
Ficava por conta de seu pai - a mãe praticamente em nada opinava - a imposição da rotina: casa – escola – igreja – casa... Conversas ou brincadeiras com os nativos, nem pensar!
Assim, há oito anos moravam naquela casa, com suas amplas varandas voltadas para o Atlântico e visitada, uma ou duas vezes por ano, pelos proprietários.
Austero e muito organizado em seus afazeres cotidianos, Zacarias sempre reservava um horário para acompanhar os “Deveres de casa” do filho. Era também nesses momentos que aproveitava para leitura de textos bíblicos para Isaac.
Havia, porém, algo importante acontecendo debaixo do seu nariz.
Isaac tinha uma enorme curiosidade sobre o mundo, as pessoas, as coisas todas do mundo. Estudante do 1º ano do ensino médio, havia se tornado um leitor voraz de tudo quanto é literatura secular.
Durante os instantes em que escapava da vigilância do pai, corria - literalmente - ao pequeno quarto escondido no fundo do quintal da casa, por traz de uma sebe. Lá, havia, pelo menos uns três anos, encontrado pilhas e pilhas de livros e CD’s de música deixados pelos donos da casa.
Acomodado numa poltrona velha, dentro do quartinho, Isaac, nesses três anos, já havia dado conta da leitura de dezenas de contos de Machado de Assis, poemas e contos de Drummond, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Kafka e Edgar Alan Poe, para citar alguns dos mais importantes.
Sem abrir mão das boas notas nas provas escolares, o filho único de Zacarias vivia, em sua fruição literária, um dos momentos de maior euforia e inquietação que um humano pode experimentar. Além dos livros, Isaac dedicava-se também a ouvir musica. Conseguira baixar no próprio celular, dezenas de álbuns, do clássico ao popular, tudo que é de mais sofisticado e de vanguarda. Sua predileção no momento era pelo compositor húngaro Béla Bartók, ou seja, de Beethoven a Chico Science, nosso garoto já havia bebido de tudo na valiosa fonte musical escondida no pequeno quarto por trás da sebe.
Alheio aos fatos, Zacarias espreitava inquieto as mudanças no comportamento do filho. Angustiava-se, até o fundo da alma, perceber que não conseguia mais obter dele o retorno, a cumplicidade no olhar d’outros tempos.
Agora, Isaac tornara-se sombrio e distante, quase não participando mais dos corinhos, nem dos círculos de oração na igreja. Durante a última escola dominical, Zacarias chegou a flagrar-lhe dormindo profundamente.
Porém, nada intrigava e inquietava mais o Caseiro que a percepção de outra mudança. Essa surpreendentemente fantástica. Estupefato, percebia que seu filho passara a assemelhar-se incrivelmente, tanto nos aspectos comportamentais, como na maneira de vestir-se ou portar-se à mesa, quanto na própria fisionomia, com o seu patrão.
Como se conversasse consigo mesmo, olhava-se no espelho, por horas, indagando-se: “Meu Deus, como isso é possível? Não é ele meu filho querido, meu único filho!? Devo fazer o tal exame do DNA? Mas... Em que isso me ajudaria, se não consigo mais reconhecê-lo como filho! No entanto, parece-se cada vez mais com o louco dono da casa!”.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

PANE

No auge do 'delírio catártico' cortaram a luz elétrica.
Em princípio, as vaias e os estridentes assovios, foram logo dissipados quando se restaurou a energia através do gerador.
Mas, aos poucos, começava a sentir um enorme calor queimando-lhe a face, em oposição ao gelado suor das mãos e dos pés.
Percebeu-se engasgado.
Em vão tentava falar algo para a inquieta platéia, mas como num pesadelo, a voz não saía. “Isso não pode ser apenas 'um acidente'!”.
E vem mais vaias, assovios e gritos.
Um dó maior, na guitarra emendar seu principal hit. Qual nada, em fúria, o público se agita ainda mais. Há de se considerar que o show havia atrasado pelo menos umas duas horas.
Tanto ensaio! As últimas composições em parceria com a amada. A consolidação do sucesso! Seu estilo próprio, sua nítida Word music... “Onde estará?”.
A partir daquele instante não conseguia perceber mais nada. Que música executava, quem estava ao seu lado, ou o quê, de fato, estava acontecendo...
Batendo com força o pé direito no lastro do palco, procurava retomar o raciocínio, situar-se naquele misto de realidade e pesadelo.
Por sorte, percebe a amada: sussurra ao seu ouvido, numa penumbra, algo como uma canção de ninar, que repetia ao microfone.
Num contraponto, guitarra, tambores e baixo reerguiam as mãos e o ânimo dos presentes. Estes, arrefecendo o ímpeto colérico de a pouco, agora voltavam a se deixar embalar pelas ondas e fótons do espetáculo.