quarta-feira, 25 de maio de 2011

MARIA

Da terra molhada

Em maio

Brota Maria

Não a quero no andor

Com ardor te chamo

Não de mãe

Acesa a vela, canto à Rainha

Beijo sua flor, pétala

a pétala

Ao menos até

Findar o mês

OS DOIS IRMÃOS

Como a memória recente insistia que não ficasse parado, atendeu a um dos dois irmãos que lhe pediu que escrevesse essa pequena estória:
Naquela tarde de domingo, as flores enviadas pelo mais velho, parecia haver dissipado, de uma vez por todas, qualquer dúvida.
De novo a mesma coisa, a mesma e antiga agonia de não entender direito aquele misto entre o amor e a fúria.
Restava-lhe essa habilidade de continuar escrevendo, que nutria como uma estratégia para de se manter vivo.
Quando infantes, era comum a disputa pelos brinquedos. Sem contar também as brigas constantes por saber quem realizaria primeiro os sonhos e projeções dos pais.
Neste domingo, depois daquelas flores, como a reedição de um filme antigo, pensou: “iriam, indefinidamente, continuar brigando para o resto de suas vidas?”
As flores, além de belíssimas, de um vivo e brilhante encantamento em suas pétalas, eram também comestíveis. Daí se deu a peleja principal.
O mais novo, presenteado, foi cortês e diligente oferecendo uma das pétalas mais viçosas ao irmão mais velho. Seu gesto, revestido pela boa prosa que embalava o encontro, parecia um bom sinal de melhora na relação.
Entretanto, repentinamente, a pequenina flor começou a mexer-se sozinha e a procurar, inexplicavelmente, outras mãos, narizes e bocas presentes.
Erguiam-se as flores do pequeno vaso, passando lentamente diante dos olhos esbugalhados e queixo caído das pessoas.
Beijou o mais novo na testa e nos olhos. Depois, suavemente se aproximou do mais velho, lambendo-lhe lábios, nariz e olhos, até sair pousando nos demais, repetindo o mesmo gesto.
Na cabeça do mais velho, aquilo só podia ser um sonho. Um maravilhoso sonho. Mas, um sonho.
Já o mais novo insistia na autenticidade e beleza do acontecido. Além disso, acreditava que seu irmão mais velho havia se tornado, definitivamente, uma pessoa fria e insensível. Este, por sua vez, retrucava: “tá perdendo, de vez a razão, o meu irmão...”.

sábado, 14 de maio de 2011

Rio (Grande do Norte), Quinta-feira, 07 de abril de 2011

“A morte não é nada que diga respeito a nós”
Epicuro (341-270)



Se pra escrever há de ser ter um pretexto, se nossa existência está condicionada a isso, esse dia não passaria sem tinta, mesmo que num branco-Kurosawa.

Duas histórias, um filme. Um encontro, a vida, a alegria. Por outro, pulsão de morte: fatídico cotidiano ocre. Stanley Kubrik atualizado, superdimensionado?

O dia abafado e quente caminho tranquilo na Escola Estadual Professora Maria Araujo, no Pium: o burburinho das salas de aula, atrasos, ausências, freqüências, intervalos, telefones e e-mails, o de sempre.

Por mais que a escola pareça se mover sozinha, possuir o seu ritmo próprio, mas seu tempo, como em qualquer outra escola, torna-se sempre exíguo, hiper-comprimido, tenso demais.

Pelo menos, hoje há um diferencial, o dia é motivador: voltaremos à academia! Kafka estava bem ali! Cadê o molho de chaves? Ah, as chaves, porque tudo sempre trancado?

De novo, o telefone: “você soube o que aconteceu no Rio?...” A impressão é de uma reprise de filme antigo, não dá bem pra concatenar. Outro chama, assinaturas, a campainha, “chegou um pai, quer lhe falar”. A ronda policial escolar também chegou, era o que faltava!...

Olho pro lado – ah, encontrei o Kafka. A tarde cai com velocidade, a luz do dia teimoso ainda ilumina a autovia, os 70 cavalos parece conhecer o caminho de casa. É bonito e calmo o ocaso avermelhado na rota do sol! Pensar? Em quê? Pra quê? Adoecer dos olhos?

Mas, chega de tanta pergunta, nos restam as exclamações. Deixemos que indague a filosofia.

Cresceu um girassol no Campus. E é belíssima a sua flor! Quanta grama há no jardim!

Foi bom encontrar uma pessoa, se primeira do plural ou singular, não importa, mas vale seu olhar a minha espreita. Levou-me à sala de aula, ofereceu-me um café, despertou-me um lirismo exagerado.

Absorto, sem conseguir disfarçar, tentei falar academicamente. Em vão!

Nesse dia, com os bichos desembestados, não fui além da perplexidade em continuar vivo, mesmo que me sentindo extremamente só.

Edilson Paulo de Souza

Referências:

FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. 2. Rio de Janeiro: Ediouro Multimidia, 2009.

PESSOA Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. 20ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.