sábado, 14 de maio de 2011

Rio (Grande do Norte), Quinta-feira, 07 de abril de 2011

“A morte não é nada que diga respeito a nós”
Epicuro (341-270)



Se pra escrever há de ser ter um pretexto, se nossa existência está condicionada a isso, esse dia não passaria sem tinta, mesmo que num branco-Kurosawa.

Duas histórias, um filme. Um encontro, a vida, a alegria. Por outro, pulsão de morte: fatídico cotidiano ocre. Stanley Kubrik atualizado, superdimensionado?

O dia abafado e quente caminho tranquilo na Escola Estadual Professora Maria Araujo, no Pium: o burburinho das salas de aula, atrasos, ausências, freqüências, intervalos, telefones e e-mails, o de sempre.

Por mais que a escola pareça se mover sozinha, possuir o seu ritmo próprio, mas seu tempo, como em qualquer outra escola, torna-se sempre exíguo, hiper-comprimido, tenso demais.

Pelo menos, hoje há um diferencial, o dia é motivador: voltaremos à academia! Kafka estava bem ali! Cadê o molho de chaves? Ah, as chaves, porque tudo sempre trancado?

De novo, o telefone: “você soube o que aconteceu no Rio?...” A impressão é de uma reprise de filme antigo, não dá bem pra concatenar. Outro chama, assinaturas, a campainha, “chegou um pai, quer lhe falar”. A ronda policial escolar também chegou, era o que faltava!...

Olho pro lado – ah, encontrei o Kafka. A tarde cai com velocidade, a luz do dia teimoso ainda ilumina a autovia, os 70 cavalos parece conhecer o caminho de casa. É bonito e calmo o ocaso avermelhado na rota do sol! Pensar? Em quê? Pra quê? Adoecer dos olhos?

Mas, chega de tanta pergunta, nos restam as exclamações. Deixemos que indague a filosofia.

Cresceu um girassol no Campus. E é belíssima a sua flor! Quanta grama há no jardim!

Foi bom encontrar uma pessoa, se primeira do plural ou singular, não importa, mas vale seu olhar a minha espreita. Levou-me à sala de aula, ofereceu-me um café, despertou-me um lirismo exagerado.

Absorto, sem conseguir disfarçar, tentei falar academicamente. Em vão!

Nesse dia, com os bichos desembestados, não fui além da perplexidade em continuar vivo, mesmo que me sentindo extremamente só.

Edilson Paulo de Souza

Referências:

FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. 2. Rio de Janeiro: Ediouro Multimidia, 2009.

PESSOA Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. 20ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Nenhum comentário:

Postar um comentário