Como a memória recente insistia que não ficasse parado, atendeu a um dos dois irmãos que lhe pediu que escrevesse essa pequena estória:
Naquela tarde de domingo, as flores enviadas pelo mais velho, parecia haver dissipado, de uma vez por todas, qualquer dúvida.
De novo a mesma coisa, a mesma e antiga agonia de não entender direito aquele misto entre o amor e a fúria.
Restava-lhe essa habilidade de continuar escrevendo, que nutria como uma estratégia para de se manter vivo.
Quando infantes, era comum a disputa pelos brinquedos. Sem contar também as brigas constantes por saber quem realizaria primeiro os sonhos e projeções dos pais.
Neste domingo, depois daquelas flores, como a reedição de um filme antigo, pensou: “iriam, indefinidamente, continuar brigando para o resto de suas vidas?”
As flores, além de belíssimas, de um vivo e brilhante encantamento em suas pétalas, eram também comestíveis. Daí se deu a peleja principal.
O mais novo, presenteado, foi cortês e diligente oferecendo uma das pétalas mais viçosas ao irmão mais velho. Seu gesto, revestido pela boa prosa que embalava o encontro, parecia um bom sinal de melhora na relação.
Entretanto, repentinamente, a pequenina flor começou a mexer-se sozinha e a procurar, inexplicavelmente, outras mãos, narizes e bocas presentes.
Erguiam-se as flores do pequeno vaso, passando lentamente diante dos olhos esbugalhados e queixo caído das pessoas.
Beijou o mais novo na testa e nos olhos. Depois, suavemente se aproximou do mais velho, lambendo-lhe lábios, nariz e olhos, até sair pousando nos demais, repetindo o mesmo gesto.
Na cabeça do mais velho, aquilo só podia ser um sonho. Um maravilhoso sonho. Mas, um sonho.
Já o mais novo insistia na autenticidade e beleza do acontecido. Além disso, acreditava que seu irmão mais velho havia se tornado, definitivamente, uma pessoa fria e insensível. Este, por sua vez, retrucava: “tá perdendo, de vez a razão, o meu irmão...”.
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